15 de janeiro de 2012

O sentimento estético da natureza.


O homem demorou muito a despertar para um sentimento estético da natureza. Mesmo na arte pictórica e na poesia, ela figurava apenas como pano de fundo, como elemento decorativo.
A natureza só veio a ser valorizada em si mesma, em sua beleza, em suas nuances, a partir do século XVIII, com o advento da literatura pré-romântica que introduziu o sentimento estético da natureza. A sua beleza, o seu esplendor e o multifacetado aspecto que podem ser captados do seu conjunto (cores, formas, luminosidade, sombras, ruídos, sons, odores; a fauna, a flora, os astros, a montanha, o mar, o luar, etc.) conquistaram um lugar de destaque na poesia e no romance europeus anglo-saxonicos e franco-suiços.
A posição privilegiada que os sentimentos passaram a ocupar no período pré-romântico propiciou o despertar das sensibilidades para o sentimento estético da paisagem. Assim, por volta dos meados do século XVIII, verifica-se uma mudança substancial no tratamento concedido à natureza nos textos literários. A paisagem convencional dos clássicos é substituída por uma paisagem viva, colorida, cheia de nuanças, odores e sons; os romances e poesias passam a oferecer quadros descritivos reveladores de um profundo sentimento estético da natureza. Os escritores se compraziam em descrever os espetáculos naturais, os esplendores da paisagem. Surge um novo gênero de poesia, o poema descritivo, introduzido na literatura com As Estações, do inglês Thompson.
Apesar do sucesso no campo da poesia descritiva, é a prosa dos viajantes e a ficção dos romancistas que revelam com mais profundidade o sentimento estético da natureza. A influência de La Nouvelle Héloïse, de Rousseau, romance cujas paisagens estimularam os romancistas a situarem as suas personagens em cenários bucólicos, a rodeá-las com elementos paisagísticos os mais belos. Depois, com o surgimento das obras Les rêveries d’un promeneur solitaire e Confessions, a influência de Rousseau sobre os romancistas de sua época foi intensificada, em razão dos espetáculos naturais que nessas obras ocupam um lugar de suma importância.
Com o romance Werther, do alemão Goethe, a literatura conhece uma das mais belas e sensíveis evocações da natureza, ora sob os seus aspectos festivos, ora sob os mais sombrios e melancólicos, descritos com uma tal profundidade emocional, com um lirismo fervoroso e, por vezes, mesclado de suave misticismo, em perfeita consonância com as emoções da personagem.
Os poetas passaram a olhar para ela com um olhar menos indiferente, mais interessado e cúmplice.

Autor: Zenóbia C. M. Cunha.



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